sábado, 27 de dezembro de 2014

New Order - Get Ready (2001)

Foto: New Order/Divulgação
É possível uma banda conseguir influenciar diferentes gerações de músicos mesmo se adequando aos tempos modernos para poder seguir em frente? Mais do que isso, é possível essa mesma banda realizar tudo isso mesmo tendo ficado em um hiato de quase dez anos? Para o New Order sim.

Se em 1983 com o lançamento de Power, Corrpution & Lies o New Order conseguiu se distanciar cada vez mais do que tinha sido com o finado Joy Division e fazer uma revolução na música eletrônica, fazendo com que amantes de rock e dance music dessem as mãos e partissem juntos para as pistas de dança, em 2001 eles voltaram após 8 anos sem registros inéditos.

Ainda que a banda estivesse mais focada no rock, eles continuaram sendo mestres no que se refere à música eletrônica. 
 
Com Get Ready, lançado em agosto de 2001, o New Order não só conseguiu recuperar a paixão dos fãs mais antigos, como também conseguiu angariar novos, com seu som que embora flertasse com coisas que a eles costumavam fazer nos anos 80, soava repaginado, atualizado, fazendo parecer uma nova banda, o que obviamente despertava a curiosidade de muita gente ao redor do mundo.

Algumas coisas não mudaram; como os solos de baixo de Peter Hook – que agora aparecia com muitos quilos a mais – que eram o norte das músicas e não deixavam dúvida: definitivamente era o New Order e eles estavam de volta!

O disco ainda contou com muitas participações especiais, como de Billy Corgan (The Smashing Pumpkins) na excelente faixa Turn My Way e de Bobby Gillespie (Jesus and Mary Chain e Primal Scream) em Rock the Shack.

Os hits desse disco foram sem dúvida Crystal e 60 Miles an Hour, além de Someone Like You. Aliás, a primeira era e é presença constante nos shows da banda até os dias de hoje. Inclusive é bem provável que esteja quase no mesmo patamar de importância de Blue Monday (Power, Corrpution & Lies, 1983) e Bizarre Love Triangle (Brotherhood, 1986).

Mas Get Ready vai muito além de Crystal ou 60MPH. O álbum trazia também as moderníssimas Primitive Notion, Vicious Streak e Close Range, que apresentam uma produção e uma sonoridade tão boa que se alguém dissesse que foram gravadas ontem, não era nada difícil de se acreditar.

Pra que se tenha uma ideia de como Get Ready foi importante pra música nos últimos quinze anos, a principal cria desse disco é ninguém menos do que o The Killers, que pra quem não sabe tirou seu nome do videoclipe de Crystal; onde uma banda fictícia aparece tocando no lugar do New Order e este é o seu nome, além de terem “se inspirado” no chroma do vídeo e terem colocado um bem parecido no seu vídeo de estreia, Somebody Told Me (Hot Fuss, 2004). Sem contar, claro, o riff de baixo de Hooky que é um dos mais espetaculares já feitos.

Apesar de toda a modernidade e da clara intenção de evoluir, de fazer coisas novas, de experimentar sons diferentes, é importante ressaltar que a identidade da banda não foi perdida no processo.

Visto isso, se você procura alguma coisa diferente, mesmo que não tenha sido lançada nos últimos quatro ou cinco anos, uma boa pedida é Get Ready, o disco que recolocou o New Order entre as grandes bandas do mundo de novo, se é que um dia eles deixaram de ser.
 
Abaixo, o clipe que é "culpado" pelo surgimento de uma das melhores bandas da década passada:
 
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Oasis - Standing on the Shoulder of Giants (2000)

Foto: Oasis/Divulgação
No distante ano 2000, depois do lançamento do superproduzido embora irregular Be Here Now (1997), o Oasis resolveu apostar em novas vertentes para lançar Standing on the Shoulder of Giants.

O disco foi concebido durante um período bastante conturbado para a banda. O líder do grupo, Noel Gallagher, estava sofrendo de constantes crises de pânico. Inclusive, é daí que vem a melhor faixa não só do álbum, mas de toda a carreira da banda, a progressiva Gas Panic!.

A banda também estava tendo que lidar com problemas de saídas de integrantes. Ainda em 1999 o baixista Paul “Guigsy” McGuigan e o guitarrista Paul “Bonehead” Arthurs resolveram abandonar o barco. 

O baterista Alan White ficaria na banda por mais algum tempo. Até idos de 2004, mais precisamente. Em todo caso, com essa situação em curso, restou a Noel a árdua tarefa de gravar todas as guitarras e baixos do disco.

Ao contrário do que acontecia nos primeiros discos da banda, as músicas de Standing on the Shoulder of Giants não tinham uma mensagem tão positivista em suas letras, mas por outro lado, seus arranjos estavam mais bem elaborados do que nunca. Outra coisa "nova" nesse disco, é que pela primeira vez 100% das composições não partiram apenas de Noel. O Gallagher mais novo, Liam, assina uma faixa: Little James. Tudo bem que é a pior do disco, mas o que vale é a intenção.

O leque de influências também era bem mais amplo. Na faixa de introdução, Fuckin’ in the Bushes, o riff principal e a levada da bateria mostram uma veia mais hard rock, ao melhor estilo Led Zeppelin.

Mas como não podia deixar de ser, em algum momento a influência que os Beatles exerciam sobre o Oasis iria aparecer. E ela está logo na faixa dois, que por sinal, foi o single de maior êxito do disco, Go Let it Out.

Outra referência aos Beatles nesse disco é encontrada em Who Feels Love?, que remete bastante à fase psicodélica dos fab four de Liverpool. Não que tenha ajudado muito. Afinal, ela apresenta forte concorrência à Little James como faixa menos empolgante de SOTSOG.

Experimentos à parte, a banda não deixou de investir nas já tradicionais guitarras distorcidas, elementos característicos do som do grupo. Put Yer Money Where Yer Mouth Is e I Can See a Liar são as amostras disso.

Noel, parte cerebral da banda, também tem seus momentos de frontman nas baladas Sunday Morning Call e Where Did it All Go Wrong?, dois dos momentos de maior inspiração do disco. A última, aliás, tinha em sua versão demo uns teclados a mais, com uns elementos de trip-hop e tal, mas infelizmente a ideia não foi levada adiante.

Falando em inspiração, Gas Panic! merece um destaque mais do que especial. A faixa mostra um daqueles momentos de raríssima felicidade na vida de um compositor quando ele escreve aquela que é a melhor letra de sua vida. Falando sobre ataques de pânico e experiências de quase morte, o Gallagher mais velho, não contente, ainda achou um espaço na sua caixinha de boas ideias e colocou na canção alguns de seus melhores solos e linhas de baixo - isso sem contar a harmonica genial de Mark Feltham.

Fechando o trabalho, a banda volta a apostar no progressivo na belíssima Roll it Over, cuja letra fala sobre outros artistas que pegaram carona no sucesso do Oasis para se promover, dentre eles, e especialmente, Robbie Williams.

Em suma, Standing on the Shoulder of Giants foi o disco certo no momento certo. Não é exatamente a obra prima da banda, mas era o melhor trabalho que eles poderiam entregar ao público naquele período, sobretudo por todos os problemas pelos quais principalmente Noel tinha passado e pelas críticas que o álbum anterior havia recebido.

Abaixo a melhor versão de Gas Panic! já registrada. Infelizmente, para a pior plateia possível: 250 mil fãs ansiosos pela volta de Axl Rose (e a reencarnação do Guns N' Roses) no Rock in Rio 3, em 2001.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

La Vida Bohème - Nuestra (2010)

Foto: La Vida Bohème/Divulgação
La Vida Bohème é uma banda de indie rock e post punk formada em 2006 formada em Caracas, Venezuela.

Dois anos depois eles venceram o Festival de Nuevas Bandas e, mais dois anos adiante, finalmente lançaram seu primeiro álbum, Nuestra.

Misturando influências de vários estilos como punk, indie, dance e música latina, não demorou muito para que a banda alcançasse relativo na América Latina e até mesmo nos Estados Unidos.

Lançado em Fevereiro de 2010, Nuestra já começa querendo prender a atenção do ouvinte mostrando o hit Radio Capital logo como cartão de visitas.

Trazendo uma pegada meio Franz Ferdinand latino, Radio Capital ainda consegue entrar na cabeça de quem ouve por um motivo bastante especial: Gabba Gabba Hey. Inclusive esse não é o único momento onde podemos encontrar fragmentos de língua inglesa nas letras, conforme nos mostra as incontáveis repetições de dance around, dance dance around de Danz!.

Uma das coisas mais legais, se não a mais legal sobre Radio Capital é o clipe. Como a banda é venezuelana e não precisa ser nenhum gênio pra saber que não se trata de um dos países exatamente mais livres do mundo, os caras resolveram tocar justamente nessa ferida. No vídeo os integrantes agem como agentes subversivos que tentam derrubar o regime vigente, até que são sequestrados e jogados dentro de uma van.

Não o bastante, o que certamente ajudou na popularidade da música, foi o fato dela ter entrado na trilha sonora do game GTA V, podendo ser encontrada na estação East Los FM, a rádio latina do jogo.

E falando em games, a banda conseguiu emplacar outra OST com a hora-pesada-hora-dançante Buen Salvaje em FIFA 12.

Conforme anteriormente mencionado, La Vida Bohème tem forte influência de punk e post punk; e o que certifica isso é Cigarro, anteriormente intitulada Aprendiendo a Apagar un Cigarro con los Pies. As guitarras secas e a batida contagiante colocam qualquer um pra dançar.

Já em Flamingo a banda procura desacelerar um pouco o ritmo, até mesmo como uma forma de dar um descanso pra quem ouve depois das três pedradas no início. Nela, eles mostram que, salvo a diferença do idioma, dentro do indie, em nada ficam devendo para bandas como Wombats e Klaxons, referências do estilo.

Em I.P.O.S.T.EL, se revezam as guitarras swingadas que são marca registrada do disco e os aparatos eletrônicos, que em dados momentos dão um ar futurista à faixa. O mesmo acontece em El Sentimento Ha Muerto, que traz efeitos que parecem terem sido sampleados do Nine Inch Nails, mas quando juntados à instrumentos de percussão, dando uma cara mais latina à música, fazem com que ela se distancie dos sons de Trent Reznor.

Uma curiosidade bastante interessante sobre Nuestra é que antes do disco ter sido colocado à venda, a banda o soltou para download por tempo limitado. Fosse pouco, além das faixas e da arte do álbum, os caras disponibilizaram uma série de arquivos junto com algumas mensagens de manifesto.

Naquele que é intitulado de La Resistance, os nomes de todos os envolvidos na gravação do disco são citados como parte de uma resistência contra a ditadura chavista, sendo que o mais interessante é que, ao baixar o disco, você também passa a ser. Ao menos é o que a banda quer dizer com "y tu que lees esto..."

No entanto, o mais interessante é mesmo o manifesto, que vale a pena ser lido. Nele, a banda mostra quais são suas intenções com o álbum e coloca de forma bastante sucinta tudo o que ele representa. 

Segue:

"A ti, que eres hijo de tu tiempo
Esta obra es un manifiesto abierto contra una dictadura
Tú, no estás loco. Esta obra quiere darte aliento

Esta obra no busca agradarte
Esta obra busca moverte. Tu mente, tu cuerpo y tu alma

Esta obra es digital porque las ideas son más que un pedazo de plástico
Esta obra es gratuita porque no busca tu dinero, sino tu tiempo y atención

Esta obra es gracias a la obra de otros
Así que tú, harás una obra

Es mía,
Es tuya,
Es de él
Es de ella
Es "Nuestra".

Ao terminar de ouvir Nuestra justamente com a faixa que dá nome ao trabalho, o interlocutor consegue perceber que acabou de ouvir uma obra que vai além de um disco de post punk dançante, mas que tem uma mensagem importante pra passar.

E melhor: consegue fazer isso de forma bastante clara, mas sem necessariamente deixar de fazer divertir. Até mesmo porque, esse é o principal objetivo da música.

Abaixo, o excelente clipe de Radio Capital:



domingo, 21 de dezembro de 2014

Monaco - Music for Pleasure (1997)

Foto: Monaco/Divulgação
Em Maio de 93 o New Order lançava Republic, o primeiro disco pela London Records após a falência da Factory.

Após uma curta turnê de divulgação do novo álbum, a banda decidiu entrar em um hiato que duraria até 1998. Neste meio tempo, os integrantes partiram para projetos solos e colaborações com outros artistas.

Então, o post de hoje é justamente sobre um destes trabalhos "paralelos" - se é que podemos colocar dessa maneira.

Em 1995, o baixista Peter Hook se juntou ao guitarrista David Potts, com quem já tinha trabalhado no projeto Revenge; e os dois começaram a trabalhar em um material para lançar um álbum.

Dois anos depois, finalmente o trabalho viu a luz do dia e as prateleiras das lojas. Intitulado Music for Pleasure, o álbum foi muito bem recebido pela crítica especializada e pelos fãs de Hooky, sobretudo pela semelhança latente com o som do New Order.

A faixa que abre os trabalhos foi coincidentemente a que fez mais sucesso. What do You Want from Me? alcançou um honroso #11 no UK Singles Chart. A pegada absolutamente pop, combinada à um refrão que gruda na cabeça por dias, garantiram o sucesso da canção. E como não podia deixar de ser, as linhas de baixo inconfundíveis de Peter Hook dão a levada da música, que tem os vocais divididos por Hooky e Pottsy entre os versos e o refrão, respectivamente.

Inclusive, uma curiosidade sobre What do You Want From Me? é que até os dias de hoje muitas pessoas ainda pensam que se trata de uma música do New Order.

E como é impossível falar de Peter Hook sem falar de New Order, logo na faixa seguinte vem aquela que sem sombra de dúvidas entraria em Republic. Falar das linhas e do solo de baixo de Shine é chover no molhado, então, cabe fazer referência aos vocais de Pottsy que, nesse caso, são absurdamente parecidos com os de Bernard Sumner, sobretudo no refrão. Aliás, um grande engano desse álbum é justamente essa faixa. No caso, o fato dela não ter sido escolhida como um dos singles.

E falando em singles, a próxima foi um deles. Sweet Lips traz uma pegada absolutamente dançante onde o único instrumento de cordas é o baixo de Hooky que sola durante o refrão. De resto, é eletrônica do início ao fim, numa mistura bem legal de acid-house e eurodance.

Outro momento em que o duo usou todos os sintetizadores possíveis foi em Junk. Mais uma vez o acid-house o pop europeu dos anos 90 se juntam pra fazer a faixa mais techno do álbum. E não por acaso, a que mais te permite dançar.

Mas engana-se quem pensa que o rock não tem espaço em Music for Pleasures. Buzz Gum e Under the Stars estão aí justamente para provar o contrário. Aliás, ambas fazem com que a gente pense que Hooky e Pottsy resolveram surfar na onda do britpop quando compuseram a faixa, levando em conta que era a vertente mais popular da época.

Dois dos momentos mais inspirados do álbum aparecem mais ao final, com Happy Jack e Tender. A primeira, se tivessem investido nela, seria hit de rádio com relativa facilidade, dada a facilidade com que se digere a música. A voz agradável de Pottsy é parte fundamental do processo.

Costuma-se dizer que o tom de voz com que se canta uma música diz muito sobre ela. Em Tender é exatamente essa a percepção que se tem. Como nela Hooky assume novamente os vocais, mesmo que ela tente ter uma pegada mais pop, o piano que acompanha no começo somados aos vocais graves do baixista dão um ar quase soturno à ela.

A conclusiva Sedona soa exatamente como foi pensada: um instrumental pra fechar o álbum. Com uma introdução quase interminável no sintetizador e levada numa batida mais lenta, acompanhada de pequenos solos de guitarra e de baixos de seis cordas, ela termina com uma pequena mensagem de Hooky dizendo: "Oi! Can turn off now". Isso é: depois de mais de um minuto depois da música ter acabado. Aos que ouvem com fone de ouvido fica o aviso: pode causar susto.

Confere aí a versão americana do vídeo de What do You Want From Me? e Hooky com pinta de traficante/cafetão italiano:


Graham Coxon - The Sky is Too High (1998)

Foto: Divulgação
Um ano após o sucesso arrebatador do self-titled Blur com os sucessos Song 2 e Beetlebum, o guitarrista Graham Coxon decidiu que iria tocar uma carreira solo, ainda que tivesse mais jeito de projeto paralelo, uma vez que o Blur ainda era o foco principal.

Ainda em 1998 mesmo ele lançou seu primeiro álbum, The Sky is Too High, numa forma de tentar canalizar toda a sua criatividade que, em partes, não era aproveitada no Blur, fazendo com que ele ficasse sempre à sompra da genialidade de Damon Albarn.

Duas músicas que podem ser usadas para que seja feita a comparação e se note o contraste são Where d'You Go?, que tem uma alma mais obscura e Who The Fuck?, que flerta entre o punk e o próprio Blur de Modern Life is Rubbish (1993), mais precisamente Popscene.

The Sky is Too High mostra uma espécie de mistura, onde Graham flutua entre vários estilos, como punk, folk e o próprio britpop. Com uma levada mais pro folk, Hard + Slow toma pra si o título de faixa mais agradável do disco.

Me You, We Two sintetiza bem o conceito de experimentalidade que Coxon queria introduzir nesse trabalho. Levada ao violão e com uma batida constante, além de efeitos ao fundo, é uma das peças mais interessantes da obra.

Outro fato destacável foi Graham trabalhar sozinho no disco, tanto no aspecto musical, dado o fato de que ele gravou todos os instrumentos, ainda que o violão seja o instrumento dominante, bem como na produção.

Colecionando sons experimentais e nada radiofônicos, além de não se prender a um determinado estilo, o álbum também passa a impressão de que Coxon tenta se distanciar da imagem pop que ficou associada a ele com o sucesso do Blur.

E em todo caso, se o objetivo era esse, Graham conseguiu atingir a meta com louvor. De toda a sua discografia solo, é o álbum que mais se distancia de qualquer coisa que ele já havia feito com a banda, ainda que um único momento faça lembrar. 

Nunca ouviu? Quer conhecer? Aperta play aí:

sábado, 20 de dezembro de 2014

The Replacements - Tim (1985)

Foto: Rolling Stone/Divulgação
Em 1985 o grupo liderado por Paul Westerberg, um dos compositores mais cultuados de todos os tempos e que tinha nas quatro cordas um dos caras mais tarimbados e versáteis do rock n' roll, Tommy Stinson, que hoje toca no Guns N' Roses, já desfrutava de uma popularidade relativamente alta.

Se eles haviam conquistado a crítica exatamente um ano antes com o lançamento de Let it Be, no então ano corrente, 1985, os Mats descolaram um contrato com uma gravadora para lançarem seu próximo trabalho, Tim, que é a nossa pauta de hoje.

Muito diferente do começo da carreira do grupo, lá pelos idos de 1979, onde eles focavam exclusivamente no punk, com o passar dos anos o som dos Replacements foi ganhando sua própria identidade, fazendo com que eles se tornassem uma das bandas mais autênticas da história do rock alternativo.

No início de Tim as raízes do punk ainda predominam, mais precisamente nas quatro primeiras faixas, com destaque para Kiss Me on the Bus e Dose of Thunder, que fazem mostrar a influência que a banda recebia do Clash, embora houvessem momentos de maior técnica e preciosismo, sobretudo por parte de Paul Westerberg e Tommy Stinson. Dessas quatro, apenas I'll Buy chega a destoar pelo menos um pouco, trazendo uma pegada mais rockabilly.

No entanto, a curtíssima Waitress in the Sky logo trata de mudar totalmente o panorama e a dinâmica do álbum. Flutuando entre o folk e o country, apresenta-se como uma das faixas mais divertidas do disco.

Aliás, essa capacidade de Westerberg de escrever canções que conseguem ir de um estilo a outro a cada verso, fazendo com que ela não tenha uma definição óbvia aparece também em Swingin' Party, que vem logo na sequência. Nessa, a alternância é entre sons dos anos sessenta e Elvis Costello.

Em tempo e antes de qualquer coisa nesse parágrafo: que se reconheça que Bastards of Young é um dos hinos definitivos do punk-rock. Só o título ao melhor estilo "pé-na-porta e soco na cara" já sugere muito sobre a mensagem que a música quer passar. Não o bastante, quando a banda teve a oportunidade de produzir um clipe para a divulgação da faixa, eles optaram por simplesmente colocarem um rádio tocando a música.

O "protesto" em questão era pelo fato de que eles não queriam se adequar às normas da MTV. Ainda não contentes, acabaram por produzir clipes bem parecidos com estes para Hold My Life, que abre o álbum, além de Left of the Dial.

Mais ao final, Little Mascara é o último momento mais próximo de punk do álbum. Mais do que isso, na verdade, é a última com a combinação clássica de baixo, guitarra e bateria.

Como a cereja do bolo, uma das músicas mais bonitas de que se tem notícia encerra Tim. Em Here Comes a Regular o que se vê é um dos momentos mais inspirados de toda a carreira de Westerberg como compositor. Nela, a influência do folk volta ao disco, principalmente porque se nota que boa parte de sua estrutura é bastante similar à de Knockin'on Heaven's Door, clássico de Bob Dylan.

Comercialmente falando, é o disco mais bem sucedido da banda. No entanto, o álbum que tinha tudo para alavancar os Replacements como uma das grandes bandas da história e não relegá-la apenas ao culto na cena alternativa, infelizmente não pôde ajudar tanto assim, uma vez que os shows da banda eram um verdadeiro caos, com os integrantes quase sempre bastante alterados pelo efeito do álcool e por várias vezes deixando de tocar as faixas inteiras. 

Levando isso em conta, entende-se porque os Mats nunca alcançaram o estrelato definitivo. Ou talvez nem fosse essa a vontade de Westerberg e dos irmãos Stinson

Mas há de se dizer: se a carreira da banda tivesse sido tão bem estruturada como Tim é, eles certamente teriam o feito.

Além do mais, há também de se considerar e respeitar muito um álbum que, apesar do problema dos clipes e da escolha errônea dos singles, descolou um lugar entre os duzentos melhores discos da história da música. 

Confere aí embaixo o controverso clipe de Bastards of Young:

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

The Smashing Pumpkins - Monuments to an Elegy (2014)

Foto: Divulgação
Em 2012, quando lançou Oceania, Billy Corgan disse que se o disco falhasse, nunca mais lançaria nada sob o nome de Smashing Pumpkins.

É importante salientar que hoje em dia o sucesso de um disco é medido muito mais pela recepção dos fãs e pela opinião da crítica do que pelo seu número de vendas.

Tendo isso em mente, fica ratificado que Oceania cumpriu seu objetivo como disco de rock e, para nossa sorte, Mr. Corgan segue tocando o barco dos Pumpkins.

Aliás, é preciso dizer: há vida no Smashing Pumpkins, mesmo que seja só o Billy Corgan sozinho no estúdio, apesar de a máxima não ser verdadeira, pois do batalhão de gente que passou pela banda nos últimos anos, o guitarrista Jeff Schroder segue como fiel escudeiro. 

Rasgação de seda para a banda à parte, Monuments to an Elegy é parte de um projeto chamado Teargarden by Kaleidyscope, mais uma das criações da cabeça megalomaníaca de Billy Corgan.

Logo na primeira faixa, Tiberius, os poucos segundos de um piano calmo ao melhor estilo Mellon Collie and the Infinite Sadness dão lugar às paredes de guitarra já conhecidas e adoradas pelos fãs da banda. O petardo logo de cara não deixa dúvida: é Smashing Pumpkins - e em sua melhor forma.

Que Corgan sempre gostou de brincar com umas máquinas de fazer música também nunca foi surpresa, sobretudo pelo que se vê em Adore, de 1998. No começo de Being Beige, que depois ganha o peso das guitarras e da bateria de Tommy Lee (sim, o próprio!) e principalmente em Run2me isso fica bastante evidente.

Mas a velha fórmula que consagrou a banda não é simplesmente deixada de lado. Até mesmo porque, Billy Corgan tem consciência do que os seus fãs esperam dele. E ele entrega exatamente isso.

Prova disso é Anti-Hero, que encerra os trabalhos de Monuments to an Elegy. A levada densa das guitarras no início em conjunto com um refrão que incendeia até o menos dos empolgados com a banda faz parecer que a faixa é uma sobra remasterizada de Siamese Dream (1993) ou uma b-side de Zero (Mellon Collie and the Infinite Sadness, 1995).

Inclusive, nessa mesma levada, em proporções até maiores se é que se pode dizer assim, temos One and All, que faz remeter aos tempos de maior fúria e criatividade de Billy Corgan.

Pelo resumo da ópera, apesar de não ter as músicas de nove minutos (um patrimônio da obra dos Pumpkins), Monuments to an Elegy se mostra um disco ambicioso, inquieto, com um ar de obra inacabada, apesar de não parecer ter a menor pretensão de angariar novos fãs pra banda.

Até mesmo porque, Billy Corgan conhece muito bem a sua base de fãs - e é para eles que ele trabalha.

No mais, ouve aí:

 

Sobre o blog

Esse é o segundo ou terceiro blog sobre música (e ocasionalmente demais variedades) que eu faço. Quase sempre acontece quando eu me sinto ocioso e me bate vontade de escrever. Ou então quando eu ouço um disco que me faz pensar: "puta merda, isso é bom pra cacete!" Com o Dance Para o Rádio foi por causa do debut do Noel Gallagher. Esse é por causa do Monuments to an Elegy, do Smashing Pumpkins.